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26 de outubro de 2015

A Nau Catrineta - romance / rimance compilado por Almeida Garrett


"A Nau Catrineta", filme animado
baseado na banda desenhada de Artur Correia.
Avanca, Filmógrafo, 2012.

Criação gráfica digital e animação: Vítor Lopes
Criação gráfica original: Artur Correia
Narração: Fernando Mendonça
Música: Joaquim Pavão
Voz (música): Isabel Fernandes Pinto


Texto: Romance tradicional
compilado por Almeida Garrett
no Romanceiro.


Texto:

A Nau Catrineta


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.

Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

– "Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal!"

– "Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar."

– "Acima, acima, gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal!"

– "Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal!"

Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar."

– "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei de casar."

– "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar."

– "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar."

– "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar."

– "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."

– "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."

– "Dar-te-ei a Catrineta,
Para nela navegar."

– "Não quero a Nau Catrineta,
Que a não sei governar."

– "Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei de dar?"

– "Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!"

– "Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar."

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;

E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.

«A Nau Catrineta », 1945 - Estudo para os frescos da Gare Marítima de Alcântara.
Por: José de Almada Negreiros (1873 - 1970).

20 de outubro de 2015

O caçador - romance coligido por Almeida Garrett

Notas: 
  1. As palavras numeradas, de 1 a 13, correspondem às da atividade do manual de Português.
  2. As palavras mais antigas ou difíceis estão traduzidas e sinalizadas em itálico.

Ilustração no blogue "Contos de encantar".

O Caçador


O caçador foi à caça,
A caça, como soía;     [como era costume]
Os cães já leva [1] cansados,
O falcão perdido havia.

Andando se lhe fez noite
Por uma mata [2] sombria,
Arrimou-se a uma azinheira,     [encostou-se a]
A mais alta que ali via.

Foi a levantar os olhos,
Viu coisa de maravilha:
No mais alto da ramada
Uma donzela tão [3] linda!

Dos cabelos da cabeça
A mesma árvore vestia,
Da luz dos olhos tão viva
Todo o bosque se alumia.

Ali falou a donzela,
Já vereis o que [4] dizia:

— «Não te assustes, cavaleiro,
Não tenhas tamanha frima.    [impaciência]
Sou filha de um rei c’roado,
De uma bendita [5] rainha.

Sete fadas me fadaram,
Nos braços de mi madrinha,
Que estivesse aqui sete anos,
Sete anos e mais um dia;

Hoje se acabam nos anos,
Amanhã se conta o dia;
Leva-me, por Deus to peço,
Leva em tua [6] companhia

  «Espera-me aqui, donzela,
Té amanhã, que é o dia;
Que eu vou tomar conselho,
Conselho com minha [7] tia

Responde agora a donzela,
Que bem que lhe respondia!

  «Oh, mal haja o [8] cavaleiro,
Que não teve cortesia:
Deixa a menina no souto     [mata; bosque denso]
Sem lhe fazer companhia!»

Ela ficou no seu [9] ramo,
Ele foi-se a ter coa tia...
Já voltava o cavaleiro
Apenas que rompe o dia;

Corre por toda essa mata,
A enzinha não descobria.     [azinheira]
Vai correndo e vai [10] chamando,
Donzela não respondia;

Deitou os olhos ao longe,
Viu tanta cavalaria,
De senhores e [11] fidalgos
Muito grande tropelia.     [agitação]

Levavam na linda infanta,
Que era já contado o dia.
O triste do cavaleiro
Por morto no chão [12] caía;

Mas já tornava aos sentidos
E a mão à espada metia:

  «Oh, quem perdeu o que eu [13] perco
Grande penar merecia!     [sofrimento]
Justiça faço em mim mesmo
E aqui me acabo coa vida.»


In Romanceiro, compilado por Almeida Garrett
(versão adaptada, a partir do texto da ed. de
Lisboa: Círculo de Leitores, 1997.)



Encostou-se a uma azinheira...