GRUPO I – LEITURA (150 pontos)
Conteúdo: 6 pontos
Organização e correção linguística: 4 pontos
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Total: 10 pontos cada questão
5 x 10 pontos = 50 pontos
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TEXTO A (50 pontos)
1. Leia o texto A e depois responda às questões, por palavras suas e de forma completa.
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Onde o nosso Comendador, apesar da provecta idade, discorre sobre as redes sociais, nomeadamente o Facebook (ou livro de caras), do qual é membro ativo há já seis dias.
Foi quando me perguntaram o que pensava das redes sociais que descobri que não pensava nada. A resposta que dei, envolvendo a ADSE, a Santa Casa da Misericórdia e o Albergue da Mitra, foi claríssima, já que provou que eu nem fazia ideia do que é o que hoje chamam uma rede social.
Pedi ajuda aos meus netos (ou talvez sejam bisnetos). Explicaram-me tudo muito bem, disseram que tinham 60 ou 70 amigos cada no Facebook.
- Livro de caras - corrigi eu, que nunca gostei de expressões anglófilas à mesa.
- Não, vô, Facebook mesmo, é assim que se chama.
Decidi aderir ao dito Facebook e, logo que soube que o máximo de amigos é cinco mil, apostei com todos os netos que tinha à mão, e ainda com um filho ou dois, que em menos de um mês chegaria a ter os ditos cinco mil.
No primeiro dia, inscrevi-me e coloquei lá todos os meus dados, exceto os das séries de televisão preferidas, porque, desde que acabaram os Concertos para a Juventude de Leonard Bernstein - e o próprio Leonard Bernstein -, nunca mais vi nada de jeito na TV. Passados dois minutos a olhar para aquela barra azul, na ânsia de encontrar um amigo qualquer (da faculdade e do colégio já não havia nenhum), apareceu uma senhora com uma foto jeitosa a pedir para ser minha amiga. Claro que aceitei! Poucos segundos depois ela mandou-me uma mensagem onde insinuava que era minha admiradora e que eu lhe devia comprar e divulgar um livro de autoajuda intitulado "Como Fazer Amigos no Facebook". Comprei o livro, divulguei-o na minha página e penso que era, exatamente, a autoajuda de que precisava naquele momento, pois imensa gente, a partir daí, quis ser minha amiga.
Após dois escassos dias de adesão à rede, eu era já amigo de vinte e sete restaurantes, de quarenta e seis regiões, cidades e aldeias, de um talho, de duas charcutarias, de seis promotores imobiliários, de quatro livrarias e de quinze festas populares, arraiais e concertos diversos. Com dois velhotes (um deles ateu militante), que me concederam igualmente a alegria de serem meus amigos, perfaziam mais de cem. Como balanço de dois dias não era mau, mas ainda era pouco.
Aderi, então, a todos os grupos e causas que pude, desde a que pugna pelo não fecho da Biblioteca Nacional até à que luta pelas obras imediatas para salvar a Biblioteca Nacional. Tornando-me amigo das diversas distritais do PSD, do PS, do Bloco e de células avulsas do PCP e núcleos do CDS, e ainda de Manuel Alegre, de Fernando Nobre, de Cavaco Silva e da Causa Monárquica, evitando habilidosamente uma disputa entre o Núcleo Tauromáquico de Santarém e o Grupo de Forcados Amadores do Montijo, ao fim do quarto dia tinha mais dois mil amigos. Salvo erro, destes conheço dois, mas estabeleci uma relação de certa intimidade com a aldeia de Cebolais, cujo presidente da Junta quer fazer de mim aldeão honorário.
Agora, que em seis dias fiz quase três mil amigos, acredito que ganhei a aposta. É certo que comecei a aceitar amigos russos, indianos, americanos e, até, da Finlândia. Já dizia o meu avô que amigos até no Inferno - e, se aparecer algum, é certo que os adiciono. Por falar nisso, tenho cá o Sócrates e o Passos, para não falar do John McCain, da Sarah Palin, do Zapatero e do Chávez.
O que é preciso, como diz o outro, é confiança. E estou cheio dela. Quando descobrir para que quero tanto amigo, não deixarei de dizer.
Comendador Marques de Correia
Texto publicado na edição da Única de 24 de julho de 2010
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1.1. Explique o equívoco do Comendador Marques de Correia em torno da expressão “rede social”.
1.2. Interprete a sua intenção de traduzir a palavra “Facebook”.
1.3. Porque aderiu o comendador ao Facebook?
1.4. Comente o valor expressivo da ironia presente na frase “após dois escassos dias […] concertos diversos” (ver as linhas sublinhadas no texto).
1.5. O que fez ele para ganhar a aposta que fizera com os seus familiares mais jovens?




